domingo, 22 de outubro de 2017

Riqueza escondida em estantes empoeiradas

“Sempre imaginei o paraíso como um tipo de biblioteca”. - Jorge Luis Borges


Foto: Lia Xavier

Por Lia Xavier


Amigos que já fizeram você se emocionar, gargalhar e sentir um vazio ao virar a contracapa ao final da leitura. Os livros têm um poder inimaginável na vida daqueles que os procuram. E a recompensa de tal amizade é a certeza de um conhecimento que jamais será perdido.



Entretanto, se sabe que grande parte da população do país não possui a leitura como um hábito. Segundo dados de pesquisa realizada pelo Ibope e encomendada pelo Instituto Pró-Livro em 2015, apenas um pouco mais da metade da população - 56% - de brasileiros leem com considerável frequência. Porém, esse número ainda é bastante baixo, tal que quem lê, tem uma média de 4,96 livros por ano, sendo esses recomendados pela escola, lidos por vontade própria, em partes ou abandonados no meio da narrativa. A amostra da investigação conta com 5012 participações de pessoas alfabetizadas com idade a partir dos 5 anos. Essa foi a quarta edição da pesquisa, tendo sido a primeira realizada no ano 2000.

Alguns dos resultados apresentados nessa nova edição da pesquisa vieram para corroborar o que a edição anterior, feita em 2011, já mostrava: a Bíblia segue sendo o livro mais lido, independente da escolaridade da leitor e as mulheres ainda são as campeãs, com 59%. Entre os homens o percentual é de 52%. Uma modificação de 2011 para cá, foi o aumento de leitores na faixa de idade entre os 18-24 anos - 52% em 2011 para 67% em 2015. Dentre os livros preferidos estão A Menina que Roubava Livros, A Cabana, A Culpa é das Estrelas, Harry Potter, dentre outros. Já entre os autores, estão Monteiro Lobato, Augusto Cury, John Green e outros.

Outro dado que a pesquisa traz, é o aumento de acesso a livros digitais. Dos que já leram, 56% o fez no celular/smartphone, 49% pelo computador, 48% em tablet/IPad e 4% em Kobo, Kiddle ou Lev. Entretanto, a maioria ainda recorre aos livros físicos. A pesquisa completa pode ser acessada aqui.

Histórias passadas adiante


Em Pelotas, os hábitos leitores tem crescidos consideravelmente, basta ver o número de livrarias que ampliariam seus espaços ou abriram novas lojas pela cidade. Contudo, um local que tem tido bastante procura são os sebos. Tradicionais por vender livros com preços menores que as livrarias comuns, alguns dos sebos de Pelotas contam com um vasto acervo, inclusive livros com data de lançamento bastante recente. Outro motivo da procura, são os livros raros e de difícil acesso e de discos de vinil, também comercializados nesses locais.

Dados de uma pesquisa mostram que grande parte dos frequentadores dos estabelecimentos passaram a frequentar ou por indicação de amigos ou por estarem passando em frente as lojas e estranharem o fato do local vender tantos livros por valores baixos.

Pesquisa realizada durante os dias 20 a 22 de outubro de 2017 no grupo UFPel do Facebook (Créditos: Lia Xavier)


Dentre os locais desse gênero mais conhecidos estão o Icária, o Zé Carioca, o Monte Cristo e o Monquelat. São vastas as opiniões, avaliações e recomendações aos locais. Tanto o Icária, quanto o Monte Cristo recebem inúmeros comentários positivos nas suas redes sociais, porém este último tem um pequeno bônus: o gato Conde, o protetor dos livros. Um dos sócios proprietários, Júlio dos Anjos Junior, 40, conta que o gato apareceu, há cerca de um ano e meio, "magrinho" e debilitado. Logo se afeiçoaram pelo animal, trataram dele e ele acabou ficando no estabelecimento. Tornou-se um gato sociável e o primeiro a cumprimentar quem adentra a loja. "Ele fica na vitrine e é uma atração, as pessoas param pra olhar, tiram fotos. Por vezes se assustam porque ele fica em cima das coisas e acham que ele é um bibelô, então ele mia e as pessoas, se surpreendem 'o gato tá vivo!'. E ele não incomoda, não tem o hábito de mexer nas coisas, afiar as unhas nos livros." conta Júlio.
.Conde, o mascote do Monte Cristo (Foto: Sebo Monte Cristo/Facebook)

Com relação ao campo de trabalho, ele acredita que os sebos  - e livrarias em geral - poderiam ser mais valorizados e que no Brasil é complicado trabalhar com um objeto que tem uma procura muito baixa ou não muito específica. " Infelizmente falta o hábito e a cultura, para que a coisa se desenvolva melhor. Tem muita gente que procura só o que é lançamento, não lê por ler, por gostar de uma obra, mas porque saiu livro novo e porque tá nos best sellers, não interessa se o livro é bom ou ruim", comenta.

Todavia, Junior diz que não tem do que reclamar. Apesar de todos esses que buscam os livros novos, ainda existem aqueles que se importam com a obra, seja ela nova ou velha ou se está na lista dos mais vendidos ou não. E entende que o caminho é chegar mais próximo ao cliente. "Mas é o hábito. Quanto mais gente criar o hábito da leitura, frequentar esse tipo de lugar e consumir esse tipo de produto, mais a atividade vai ter abrangência", finaliza Júlio.

Tudo que foi e deixou de ser


Uma particularidade que só se encontra em sebos, devido aos artigos serem usados, são as dedicatórias que se encontram normalmente na folha de rosto do livro. Muitas vezes elas contam histórias de amor de que deixaram de existir , e, consequentemente, precisaram ser deixada para trás, com tudo que as lembrasse. Não é muito difícil encontrar poemas e frases entre namorados. Muitas pessoas procuram exclusivamente esse tipo de exemplar por gostar de imaginar toda a história que ele teve até chegar ali, naquela estante, a venda.

Exemplar adquirido no sebo Icária contendo dedicatória. (Foto: Lia Xavier)

O que se percebe, é que os sebos servem como um saída para todos aqueles que procuram preços menores, exemplares raros e itens para coleção em um único lugar. O que faz dos sebos os (alguns dos) melhores lugares da cidade.

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